Estou lendo um livro interessantíssimo. Tão interessante e valioso, que comprei a versão dele para Kindle e irei comprar a versão impressa do mesmo. O título do livro em inglês é Your Brain at Work, algo como “Seu cérebro no trabalho” e fala sobre estratégias para superar as distrações, recuperar o foco e trabalhar de uma forma mais inteligente por todo o dia. Esse material chegou em boa hora, já que veio aprofundar muito do conhecimento, que acumulei ao longo da vida sobre trabalho e gestão do tempo, como também melhorar a minha performance em um momento onde me vejo tocando muitos projetos importantes que requerem a minha atenção. Após já ter lido alguns capítulos, cheguei a um que comprova cientificamente os motivos pelos quais não fazemos algo novo, preferindo procrastinar e muito menos empreender.
Nosso cérebro tem um princípio de organização global que classifica o mundo à nossa volta em coisas que irão nos machucar ou coisas que irão nos manter vivos.
“Tudo o que fazemos na vida é determinado pelo nosso cérebro para minimizar perigos ou maximizar recompensas. Este é o princípio organizador do cérebro.” ~ Dr. Evian Gordon
Além disso, nosso cérebro gasta muita energia gerenciando o sistema límbico, responsável por classificar as experiências que obtém, através dos cinco sentidos pra nos afastar delas ou nos deixar prosseguir. Ele é algo como um “garantidor” da nossa existência. Avistamos uma cobra no meio do mato e esta experiência ganha uma prioridade máxima no nosso cérebro, pedindo por uma sugestão urgente das outras partes dele. Não somente nessa situação, mas até mesmo quando vemos caras tristes ou raivosas em uma fotografia, nosso sistema límbico é ativado. Da mesma forma, este mesmo sistema, também avisa para o restante do nosso cérebro que determinada experiência que estamos vivendo, ou prestes a viver, é recompensadora. Coisas como comida, dinheiro, sexo ou um rosto familiar, significam recompensa para ele.
O problema é que conforme vivemos experiências e sentimos emoções através delas, sejam de repulsa ou de desejo, nosso sistema límbico se excita. Muitas partes do nosso cérebro são responsáveis por interpretar nossas experiências, mas duas delas são importantes: o hipocampo e a amígdala. A primeira corresponde a uma grande área do cérebro e é responsável por lembrarmos não somente de fatos, mas também de nossos sentimentos em relação a eles. Já a segunda, a amígdala, é uma região em forma de amêndoa localizada logo acima da área responsável por sentir odores. Ela tende a ficar excitada na proporção da força com que respondemos a determinada emoção. Algo como o nosso termômetro de sentimentos.
Com a maior parte do nosso cérebro excitada devido a alguma emoção, ficamos sem “espaço” para pensar “direito”. Em um mundo de perigos, há gerações atrás, o hipocampo e a amígdala foram forçados a serem hipervigilantes. Um guardando as lembranças do que nos acontecia, classificando além dos fatos, mas também as emoções que sentíamos, enquanto a amígdala dava o nível de “estresse” ao qual estávamos sendo submetidos. Imagino que seria algo como: vimos um tigre por entre as árvores, lembramos de um amigo que foi devorado por um, sabemos que o tigre também irá nos devorar e corremos “feito loucos” porque o nível de excitação da nossa amígdala transbordou. Registramos aquela informação e evitamos dar de cara com outro tigre novamente, inclusive evitando a área desconhecida por nós e outros membros da nossa comunidade.
Ainda mais interessante, é que vivendo em um mundo perigoso, preferimos nos manter vivos fugindo dos perigos ao invés de correr atrás de recompensas. Isso ficou registrado na constituição do nosso cérebro e também no nosso sistema límbico. Sabe aquele dito popular que diz “mais vale um pássaro na mão que um voando”? Pois é. Se imaginarmos a seguinte cena: um tigre à esquerda, um oásis à direita e a nossa casinha com pouca comida atrás de nós, nosso cérebro decidirá, para sobreviver, que voltemos para a nossa casinha, pois como o tigre é perigoso e o oásis é algo desconhecido para o nosso hipocampo, é melhor voltarmos para o que já conhecemos do que nos arriscarmos em um mundo de incertezas.
JÁ PERCEBEU ONDE QUERO CHEGAR?
Quando se fala de empreendedorismo, estamos falando de incertezas. Até mesmo quando fazemos um bom plano de negócios, podemos falhar. Tudo o que achamos sobre o nosso futuro negócio, até mesmo após muito estudo e pesquisa de mercado é puro “achismo“. Tentamos minimizar o risco do negócio, planejando-o mais e mais, tentando garantir para o nosso sistema límbico que valerá a pena ir à rua.
Acontecem duas situações com quem almeja empreender: ou o empreendedor irá garantir a sua frustração como empreendedor, para afirmar a sua decisão de voltar atrás na abertura da sua empresa procurando situações onde ele “ganhe” dor, ou então vai procurar garantir, através de pequenas experiências, que está usufruindo de boas recompensas.
Já que o nosso cérebro funciona assim e ponto final, precisamos garantir uma estratégia que burle esse mecanismo de sobrevivência. Por isso, enfatizo muito o fato de empreendermos através de pequenos testes de mercado, investindo pouco da nossa vida (nosso dinheiro, tempo e família) para obter algum sucesso ou sofrer um pequeno prejuízo. Apostar todas as fichas em uma só opção pode levar a uma queda muito grande e quando estamos falando em acostumar o nosso cérebro a empreender, estamos falando em dar-lhe experiências que constantemente o façam dizer para nós: “Olha que bacana o que estou vivendo”.
Eu também tive que burlar o meu cérebro para empreender de verdade. Quando comecei vivia experimentando falhas e mais falhas, até que decidi começar com o mínimo e pouco a pouco crescer. Sem cultivar muitas expectativas e sem chamar muito a atenção. Sabe aquela coisa de “mineiro come quieto”. Pois é, empreenda quieto. Faça pouquinho. Compre algo por um real e venda por dois. Com parte do lucro compre uma bala para você. Crie um projeto e o venda para cinco clientes. Com parte do lucro pague pra você um sorvete daqueles caros que você adora. Todo mês viajo para o Rio de Janeiro e vou almoçar com o meu sócio, pagando o almoço pela conta da empresa. Não é nada demais. Sabemos que o dinheiro é nosso mesmo, mas só o fato do dinheiro não sair da minha conta ou da dele, já faz com que pensemos: “Olha que bacana. A empresa pagando um almoço pra gente”.
Nosso cérebro é assim e ponto final. A humanidade só chegou aqui porque ele se comportou assim, logo, use-o para obter aquilo que você quer. Aprenda como essa máquina funciona e mande ver.

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