Esse texto é uma visão pessoal e sendo assim passível das mais variadas críticas. Por natureza possuo uma visão um tanto tecnocrata frente aos problemas “crônicos” da raça humana. Na verdade, acredito que em realidade todos os nossos problemas são fundamentalmente técnicos, mas não vou expor com tanta voracidade esse meu ponto de vista, haja visto que muitos discordariam disso, com ou sem propriedade.
Atingimos um nível tecnológico tão elevado que hoje podemos nos dar ao luxo de termos computadores extremamente avançados que cabem em nossos bolsos. Podemos produzir textos, vídeos, fotos, músicas e publicá-los em minutos, tornado-os acessíveis à todo o planeta. Fizemos pegadas na lua e agora nossos robôs fazem rastros no solo de marte, tirando fotos, fazendo experimentos, e explorando o ambiente hostil como extensões de nossos corpos. Trouxemos luz à escuridão da noite, comunicação aos continentes antes isolados e inúmeras outras façanhas tecnológicas. Vencemos a poliomelite (um salve a Albert Sabin!), a lepra, a gripe, e inúmeras outras enfermidades. Se somos tão bons em resolver problemas com nossa tecnologia, qual a razão de problemas tão antigos ainda fazerem tantas vítimas no mundo?
Posso, ao meu ver, propor duas respostas a essa pergunta. A primeira delas consiste simplesmente no fato de que nossos avanços ainda são insuficientes, e dessa maneira nossos recursos técnicos não são competentes na solução desses problemas. A segunda resposta, que creio ser a mais próxima da realidade, é que usamos nossa tecnologia de forma ridiculamente equivocada e pagamos o preço com a permanência de problemas milenares que parecem nunca querer ir embora.
Nossa produção tecnológica (dadas algumas exceções) não está diretamente focada na solução de problemas que afligem o homem. Ela está em sua grande parte focada na manutenção do sistema econômico atual. Ao meu ver, a palavra economia deveria significar gestão correta de recursos essenciais aos seres vivos, mas o seu significado no século 21 é bem menos nobre: a gestão de uma coisa chamada dinheiro. O dinheiro, ou moeda, surgiu (dentre outros propósitos) como uma solução aos problemas logísticos do escambo. Em uma época em que recursos eram realmente escassos, a moeda era atrelada à metais preciosos (ou efetivamente feita deles) tais como ouro e prata, e era uma boa solução para o comércio em si, apesar de não resolver os problemas sociais da época (como também não o faz hoje em dia). Nos dias atuais essa economia de lastro não existe mais. O dinheiro que circula hoje em nossas carteiras tem seu valor baseado em sua própria circulação. A economia hoje tem a mecânica de jogo de banco imobiliário em escala global, e infelizmente ela não está voltada à solução de problemas fora da esfera monetária.
Nossa produção tecnológica é gerida num sistema competitivo visando maximizar lucros financeiros, e isso não tem necessariamente a ver com satisfazer as reais necessidades das pessoas. A obsolescência programada é um exemplo disso. Desperdiçamos recursos preciosos de nosso planeta projetando propositalmente produtos com cada vez menos tempo de vida útil para alimentar um modelo corporativo insaciável. Criamos pilhas de lixo tecnológico, que acabam parando em algum país africano do “quarto mundo” simplesmente para alimentar nosso vício pelo dinheiro e o poder que ele traz. Trocamos nosso celular perfeitamente funcional por um novo só porque a nova versão vem com um recurso que provavelmente nunca nos faria falta se não soubéssemos dele. Vemos o tempo todo economistas dizendo que precisamos crescer economicamente cada vez mais e mais. Só não sei até quando poderemos fazer isso dentro de uma bola azul de extensões e recursos limitados, que flutua pela Via Láctea.
Honestamente, não acredito que esse seja o real propósito da tecnologia. Quando escolhi a área de engenharia, a última coisa que pensei foi em quanto dinheiro poderia obter nesse ofício, e estou sendo muito sincero ao dizer isso. Acreditava, e continuo acreditando, que a engenharia é o braço da ciência que traz suas soluções ao mundo real, com o objetivo de tornar a vida das pessoas cada vez melhor, independente de quanto dinheiro ela tem em sua carteira ou a qual fronteira geográfica ela pertença.
A colaboração tem de ser o principal meio de avanço tecnológico e não a competição por lucro. Eu acho o maior dos absurdos em pleno século 21 uma criança pobre com bronquite não poder ter acesso a um inalador simplesmente por não ter em mãos um punhado de papéis pintados, cujo valor é atribuído por intermédio de banqueiros gordos, sentados atrás de suas mesas de madeira nobre e queimando charutos cubanos cujo valor da caixa daria para produzir pilhas de inaladores, dando o direito de respirar melhor a uma dezena de crianças doentes. Isso pra não falar de outros absurdos muito piores.
Muitas pessoas dizem que o sistema não é perfeito mas seu modelo competitivo possibilitou o avanço tecnológico que presenciamos hoje. Eu entendo isso, e em parte é verdade, mas não podemos mais viver em uma era de escassez justamente porque nossos métodos e máquinas avançaram a um patamar onde a escassez só realmente existe de forma intencional e por mal aproveitamento de recursos. Não sabemos como usar o que temos em mãos. Ainda atribuímos um custo monetário à tudo, mas a verdade é que a moeda em si não vale nada! Estamos presos a essa forma de pensar e mantemos o status quo porque acreditamos que isso seja o melhor sistema já concebido, mas não é! Não sei qual é o melhor sistema, mas isso não me tira o direito de pensar que não é esse. Talvez não haja um sistema ótimo, só sistemas transitórios que devam ser abandonados em prol de outros melhores, e isso é o que deve acontecer com o nosso.
Eu tenho um sonho! Parafraseando Martin Luther King, tenho um sonho de que um dia possamos nos focar na solução dos problemas dos nossos iguais usando nossa tecnologia da forma como ela deve ser usada, sem ter que nos preocupar em mandar dinheiro para uma minoria no topo da pirâmide. A tecnologia é muito mais do que uma geradora de dinheiro, ela é a maior conquista do homem e deve ser livre e de acesso à todos, sem etiquetas com cifrões por propriedade intelectual.
Em minha área, talvez o que tenhamos de mais próximo desse pensamento é a vertente do hardware e software livres. Pessoas com ideias colaboracionistas levam esse movimento adiante e isso ao meu ver é algo fascinante e promissor. Mesmo assim ainda há uma grande jornada pela frente e muito precisa ser mudado.
Podemos mudar o mundo? Sim! Como? Com tecnologia aplicada aos nossos verdadeiros problemas, e atribuindo à palavra economia o seu real significado, o de gestão de recursos e não de dinheiro, pois em nosso contexto social atual o dinheiro não geri nada além dele mesmo.
Sei que sou apenas mais um tolo tentando mudar as coisas com palavras, mas tenho esperança de que essas palavras mais cedo ou mais tarde se tornarão atos nas mãos de pessoas que pensem da mesma forma. Essas pessoas e seus atos serão os responsáveis em trazer os ventos da mudança que varrerão definitivamente as velhas doenças da sociedade.
Um mundo onde o principal impulso pelo progresso tecnológico é o acúmulo de bens e poder é um mundo condenado a ser destruído pela tecnologia que na verdade deveria salvá-lo.
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